Coquetel Molotov

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EL GUINCHO TROPICALIENTE

Por Ana Garcia

Não lembro da minha última entrevista. Fiquei até nervosa quando sentei com Pablo Diaz um pouco antes dele subir no palco do Rec Beat com o seu grupo El Guincho. Pedimos algumas caipirinhas e começamos a conversar. Ouvi falar em El Guincho em 2008, com o lançamento de “Alegranza!”. Desde então ele era esperado para tocar na América do Sul e por má sorte, como ele diz, os shows eram sempre cancelados. Finalmente conseguimos fechar algumas datas no Brasil em fevereiro, durante o Carnaval, e os shows foram bem tropicalientes!

Por onde você passou até chegar no Brasil durante essa turnê?
Pablo
: Viajamos para o México e fiz alguns shows por três semanas. Fiz muita imprensa, rádio. Fomos tocar em Morelia, uma província que tem um festival para umas 5 mil pessoas, um festival pequeno. E depois teve um show nosso na cidade em um teatro mítico de cabaré (Teatro Fru-Fru), foi incrível o show.

Para quantas pessoas?

Ah, não era muito grande. Tinha umas 800 pessoas.

E foi a sua primeira vez no Mexico?
Não, foi a minha terceira vez. Eu sempre tive muita má sorte, sempre estava doente ou o show tinha sido cancelado. Então, esse foi o primeiro grande concerto lá. Depois, nós fomos a Bogotá com mais mídia e shows. Fizemos um show para em torno de 700 pessoas e fiz um DJ set. Nessa turnê eu tenho combinado bastante sets de DJ e shows. E viemos enfim para o Brasil. Tocamos em São Paulo, no SESC, e o show foi incrível.

Por que a demora para vir pro Brasil?
Eu não sei, acho que foi má sorte. Eu estava marcado para vir no ano passado…

Sim, era para o nosso festival Coquetel Molotov.
É, mas a minha mãe ficou doente.

Ela teve câncer…

Sim, mas ela está melhor. O tratamento foi pesado, mas ela está curada. Pelo menos até agora.

Você chegou justamente no carnaval, mas você não parece muito surpreso com isso tudo…
Nas Ilhas Canárias tem carnaval. Somos todos diferentes, somos filhos ou netos de imigrantes latinos, como de Cuba, Argentina…

Você tem familiares de Cuba?
Sim, os meus avós. Então tem uma cultura de carnaval muito forte, é como se fosse a festa mais importante das ilhas. Toda a ilha para, algo muito parecido com Recife. O carnaval também é de rua. Todo mundo fica na rua, tem algo chamado “morga”, como se fosse umas competições entre os grupos, cantando sobre política ou a cidade. E o carnaval dura uns 10 dias e para toda a ilha.

E você tem muita dessa influencia, é algo até óbvio.
É, conheço muita musica latino americano. E o público daqui reconhece isso. É engraçado porque quando toco nos EUA, Austrália, Inglaterra é como algo exótico, não estão acostumado com isso, com a quebrada. Lá é tudo muito duro.

O meu amigo foi para o seu show em NY e falou isso, que foi muito “latino”, mas acho que ele não entendeu…
É, tem uma parte que não entende diretamente, não tem como saber de onde vem. E no meu caso…. Em Canárias se escuta muita salsa por causa da imigração, tem muitos grupos de salsa. Muitos salseiros iam para as Ilhas Canárias, não tocavam na Espanha, só nas Ilhas Canárias. Isso também acontece com muitos músicos brasileiros que vem para a Espanha e só tocam em Canárias. Depois vão para a França porque tem público que entende. Muita dessa musica eu escuto desde pequeno e todas as crianças escutavam. É bem diferente da Espanha.

E você vem de uma família musical?
Sim, por parte da minha mãe. A parte do meu pai é ligado a artes plásticas. A minha avó era pintora. Mas a minha avó da parte da minha mãe era cantora de sarsuela, é uma musica como a canção lírica clássica, mas espanhola, vem mais do Sul da Espanha. Ela era professora de musica, mas agora ela está aposentada, mas ainda gosta de escrever.

Você começou como?
Clássico, percussão clássica. Eu tinha sete anos. Estudei por quatro anos, mas eu gostava mais de esportes, futebol, tênis e comecei a fazer esportes. Quando terminei, eu tive um professor argentino que ensinava coisas mais contemporâneas, mas eu era muito pequeno e não entendia, então passei a fazer só esportes. Fui até a França jogando…

Então você levou o esporte a sério!
Sim, eu queria jogar futebol e o tênis era mais diversão.

Você jogou com os meninos da banda Holger em São Paulo e comentou que eles jogavam completamente diferente…
A idéia do futebol é diferente. Na Europa está muito domesticado e aqui no Brasil é…

Pelada…

Sim, mais anárquico.

Ah, então vocês perderam.
Sim, perdemos todos.

Então, como foi a transição dos esportes para musica?
Eu sempre continuei em casa fazendo musica, tocando guitarra. Nos anos 90 eu estudei em um colégio francês e lá o hip hop era muito forte. Todo mundo escutava muito hip hop. Na Espanha escutávamos mais rock. Eu tinha um pouco das duas coisas.

E por que você decidiu formar a banda?
Viajei muito sozinho, então foi para não viajar sozinho. Fiquei cansado do formato, era muito frustrante, especialmente na Espanha. Acho que era muito radical fazer tudo sozinho, as pessoas não sabiam se era um DJ set ou um show. Porque eu tocava teclado e cantava e as pessoas não entendiam… era difícil para o promotor também. E agora as pessoas entendem isso melhor.

E como você conheceu os músicos?

Eles são de Barcelona… de ir a shows… Eles tocam em outras bandas.

E como é viajar com eles?
É bem melhor. Eu não sou fã de turnês e então fica melhor assim. Sempre melhor ficar com os amigos. Eu não gosto de viajar sozinho, você se aliena muito e quando volta para a sociedade depois de quatro meses fica difícil voltar a vida normal.

Tem alguma historia…
Viajar, para a minha namorada, era sempre um drama porque ela estava ali parada vivendo na minha casa, a minha vida, e eu estava fora, vivendo outras coisas. Mas quando você vive coisas que essa pessoa não tem vivido pode ser difícil… voltar ao estado antes de ir é difícil.

Com os anos você não conseguiria lidar com isso?
Hoje em dia, sim. Viajar com o grupo também ajuda, antes eu ficava sozinho, pensando demais… e nessa época eu tinha 22, 23 anos, hoje tenho 28.

Como você acha que está o Brasil comparado com outros países em termos técnicos de palco, equipamento ou roadie? Lá fora é diferente?

Bem, na África é uma loucura. Estava em Gana, foi uma loucura… estava uma vez lá tocando, era em uma praia gigante, em uma festa de reggae, para 10 mil pessoas, mas não tinha mais que 50 pessoas. Era um show improvisado as 1h da manhã. Isso foi em 2009, creio. O técnico não entendia nada de som. Quando começou o show, na terceira canção, ele estava ocupado beijando a namorada. De repente tiveram que parar o show para alguns MCs subirem no palco para fazer rap. Paramos o show e tivemos que criar ritmos para eles rimarem em cima, era algo como dancehall. Isso foi no meio do show e de repente tinha uma fila de gente, um empurrando o outro, rimava e subia o outro. Foi assim, quase duas horas, e no final do show pediram dinheiro para a gente. Isso foi extremo. Mas tem uns lugares que sempre são precários, como Colômbia, não tem equipamento… Mas não senti isso no Brasil.

Todo mundo estava achando interessante você usar um subwoofer nas suas costas…
Eu preciso sentir a pressão para poder mixar. Tocamos musicas de dois discos que são muito diferentes e unificamos todos a partir do ritmo e eu preciso sentir o som grave de trás para saber a quantidade de grave que eu preciso colocar na frente. Eu tenho uma tendência de colocar muito grave para fora, mas tenho que pensar no publico.

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