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GLAUCO E O TREM: DICOTOMIAS DE UM ARTISTA

Por Rachel Queiroz

Glauco teve uma infância atípica, no que diz respeito à música. Seus primeiros anos não foram marcados pelos artistas ouvidos pela maioria de seus contemporâneos dos anos 80. Sua família era extremamente religiosa, evangélica e dentro de sua casa ouvia-se música clássica. Música com letra, só da erudita, alemã e italiana. Por essa influência, começou a compor cedo, aos oito anos de idade, o que chama de “músicas de passarinho, bem inocentes”. Compunha com o que tinha de bagagem, a música instrumental, que virou seu objeto de estudo na idade adulta. Ele é formado em música pela Universidade Federal de Pernambuco e trabalha no Conservatório Pernambucano de Música.

Embora gostasse da música instrumental, foi com a descoberta da MPB, durante a juventude, que ele pode se ampliar. Com acesso à poesia de artistas como Raul Seixas, o rapaz pode expandir-se. O erudito e o popular, fundiram-se nos gostos do rapaz, que viu uma maneira de compor para além do instrumental.

A poesia, de gosto e estilo, veio influenciada por seu pai, também poeta. Glauco afirma que embora haja diferença entre as visões religiosas de ambos, o amor pela poesia e pela arte é compartilhado entre eles, e isso acaba por uni-los. Ele conta que lembra-se exatamente de quando começou a escrever, em 2005 “textos aleatórios, em sua maioria com tom bíblico.” Nutrindo uma relação de amor e ódio com o livro sagrado, Glauco escrevia em “tom profético”.

Para traduzir o potencial de música e poesia, o artista foi chamado para participar da banda Comuna Experimental. A extinta banda, formada em 2002, comprometendo-se em fazer música sem amarrar-se a estilos, o que também aconteceu no posterior projeto solo de Glauco: Glauco e o Trem. “Por que O Trem?” – pergunto – “É porque todo artista de música brasileira tem uma música falando de trem. De sete músicas tocam na rádio, quatro falam de trem”.

Os trens de Glauco são as criações que passeiam entre diversos gêneros musicais, escritas por ele e arranjadas em simbiose com sua banda. Esta, aliás, esteve entre as seis finalistas do Pré-Amp, no início deste ano. O grupo é composto por Bruno Henrique Albuquerque (bateria), Vitor Wolmer (baixo) Rodrigo Padrão (guitarra), Heitor Albuquerque (sax e flauta transversa) e Eduardo Padrão (programador). Para Glauco, a contribuição melhora as composições, que pegam “a cara da banda”.

Hoje, Glauco escreve todos os dias, em poesia rica de significações. Alguns de seus poemas diários sobem ao palco. Glauco afirma que o processo de seleção entre o que é poesia de letra e o que é poesia de canção é intuitivo, mas alguns de seus poemas são escritos “cantando”, para que ele possa visualizar melhor como complementar a poesia da letra com a dos instrumentos.

O artista traduz em sua obra o que vem à sua mente. Sobretudo, traduz a si mesmo. Diz que escrever é melhor que fazer terapia. A música “Medo-me” é um exemplo disso. Glauco diz que ela é tão melhor traduzida quanto mais pânico ele tiver. Ele possui “aquele pânico antes de subir para o show” que o impulsiona: “ao cantar ‘Medo-me’, eu posso sentir medo, porque aí eu vou passar toda a sensação que a música carrega e vou cantar melhor.”

[Glauco e o Trem – “Perigo no lixo”]

A estréia do próximo álbum, intitulado “Eu nunca acreditei”, está prevista para setembro. Duas faixas já estão disponíveis para download. Em “São”, Glauco tem uma conversa com o próprio coração, pedindo a ele que não acelere o ritmo, mas também “não pause no ponto culminante”. Já em “Subliminarte”, a ufologia funde-se à Bíblia, no personagem de Ezequiel, em para compor uma letra que brinca com a sonoridade das palavras para cantar o inexplicável do mundo.

Misturando poesia cotidiana à sua bagagem erudita, Glauco mostra-se um artista singular. Assim como na sua história, foge de clichês e mostra pontos de vista peculiares para o que pode ser a poesia encontrada no dia a dia. Mistura o sagrado e a ufologia, o erudito e o popular, desvela-se bamba em letra e canção. Reflete em sua obra dicotomias que atingem a todos em maior ou menor grau, traduzidas na música sincera e diferente, assim como é o artista que a compõe.

06 comentários

  • link com as duas músicas pra download e pra escutar tb
    tá ótima a entrevista 🙂
    http://soundcloud.com/glaucoeotrem/sets/eu-nunca-acreditei-pr-mix/

    glauco 04.09.2011 09h28
  • único texto que preste que li sobre glauco. as pessoas parece que fazem força pra nao entende-lo, poluindo sites, blogs, portais, de impressões de péssimo gosto e sensibilidade.

    fiquei orgulhoso de um dos meus poucos amigos queridos. parabéns! 🙂

    Matheus 05.09.2011 03h00
  • Olá, vcs poderia repostar o link do download?
    O arquivo foi removido. Obg

    Jonatas 24.08.2013 07h31
  • Olá jonatas, eu retirei as músicas da internet pra download, essas do link. até pq serão lançadas com melhor qualidade em breve. enquanto isso pode ouvir e baixar algumas aqui neste link:
    https://soundcloud.com/glaucocesarii
    Um abraço!

    Glauco Segundo 22.11.2013 01h17
  • Ah sim! Td bem. Já tinha o soundcloud deles. xD
    Obg!

    Jonatas 25.11.2013 01h03

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