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IN-EDIT BRASIL 2013: Cobertura – Parte 1

Por Gabriela Alcântara

Até o dia 12 de maio, São Paulo recebe mais uma edição do festival In-Edit Brasil, com uma série de documentários musicais retratando músicos e bandas de diversas partes do mundo. As sessões acontecem no MIS-Museu da Imagem e do Som, Cinesesc, Cinemateca Brasileira, Galeria Olido e Matilha Cultural. Gabriela Alcântara está acompanhando o festival e vai registrar aqui alguns dos filmes que viu.

A programação conta ainda com uma homenagem a Dick Fontaine, que estará presente em duas sessões, e filmes como “Jards”, de Eryck Rocha, e “Death Metal Angola”, de Jeremy Xido. A programação completa pode ser encontrada no site do evento.

“Neil Young: Journeys”
Entre os riscos de se fazer um documentário musical, está um tão leviano quanto recorrente: aquele que acontece quando o realizador deixa-se levar pela performance do(s) músico(s) ali retratados, e dá menos importância à história que se propôs a contar. Porque sim, há diferença entre um DVD de show e um filme que acompanha uma turnê ou um concerto específico, mas que inclui em sua narrativa historietas que dão um ar mais interessante ao documentário. Infelizmente, em seu terceiro filme sobre o amigo Neil Young, Jonathan Demme (“O Silêncio dos Inocentes”) acaba caindo nesse erro, e ao escolher uma montagem que privilegia mais o show de Young no Massey Hall, este perde a força que teriam os relatos do músico acerca de sua relação com sua cidade natal, Omemee (Canadá).

De início, a proposta do documentário é muito clara: com uma câmera na mão, Demme é levado por Young e seu irmão pela estrada que percorre Omemee e vai até Toronto, onde o músico fará um show no Massey Hall. Ao longo do trajeto, Young lembra de inúmeras histórias de sua infância, desde as mais lúdicas, como quando ele fala que dormia em uma barraca de camping no verão, ao lado de casa, para cuidar de suas galinhas, até as mais tristes, quando Young e seu irmão lembram do incêndio que levou a casa de seus pais.

Apesar da beleza dos depoimentos dados por Neil Young, o filme acaba carregado pelo show, filmado principalmente com câmeras de baixa resolução e em ângulos um tanto estranhos, que por vezes funcionam e por outras chegam a incomodar o público. Apesar disso, a grandeza do próprio músico e a sua performance no palco não deixam que esse filme seja tedioso (fosse outro personagem, isso poderia ter acontecido facilmente). Estas filmagens trazem para a tela momentos belos, como a performance de “Leia”, música que Young compôs para a sua neta, e “Ohio”, que vem sobreposta por imagens de arquivo, que mostram a Guarda Nacional dos Estados Unidos atirando contra estudantes da Universidade Estadual de Kent, que protestavam contra a Guerra do Vietnã. O confronto acabou com a morte de quatro universitários, que também foram homenageados no documentário.

Ao final da viagem – e do show – o que fica é a sensação de que Young teria muito mais histórias a contar (o que poderá render mais um documentário a Demme), mas sua narrativa acabou sendo ofuscada pelas próprias canções. O documentário acaba, com isso, achando um público restrito apenas para os fãs de Neil Young, enquanto os demais espectadores (não tão fãs, ou que não conhecem a obra do músico) correm o risco de se sentir entediados. Com 87 minutos de duração, o longa “Neil Young: Journeys”, será exibido novamente na quarta-feira (08), às 20h, no Museu da Imagem e do Som (MIS).

“Música serve pra isso”
Por sua vez, o longa “Música serve pra isso: Uma história dos Mulheres Negras” consegue carregar o público ao longo de todo o filme. Realizado quase sem verba pela dupla mineira Bel Bechara e Sandro Serpa, o documentário conta um pouco da história de outro casal, formado por Mauricio Pereira e Andre Abujamra, os tais Mulheres Negras, a terceira menor big-band do mundo, e uma das bandas mais interessantes do cenário brasileiro.

Contando com a excentricidade dos músicos, o documentário se vale não só de depoimentos de fãs e parceiros, como Wandi Doratiotto – que chega a cantar uma música pedindo a volta dos Mulheres, que se divorciaram no final dos anos 1980, mas que já estão de volta aos palcos. Entre gargalhadas com os depoimentos dos próprios Pereira e Abujamra, um dos momentos mais divertidos do longa é o relato sobre a batalha com outra banda dos anos 1980, “Os Guitarras Fantasma”. O duelo, que aconteceu no Sesc, teve como árbitro Regina Casé (que chegou a tirar a calcinha durante a apresentação) e contou também com a participação do público, que jogou aviões de papel nos músicos (aparentemente, um momento de realização para Andre Abujamra).

Além de divertir, “Música serve pra isso” tem mérito também por trazer para o público uma banda tão importante quanto pouco conhecida, e não por acaso: graças ao tom excêntrico presente tanto nas canções quanto no vestuário e na performance do palco dos Mulheres, Abujamra e Pereira podem tanto cativar quanto assustar o público menos preparado. Tamanha criatividade vem de vários pontos da própria personalidade dos dois músicos, alguns dos quais são revelados ao longo do filme.

Logo no início, por exemplo, Pereira dá um depoimento que não só esclarece sobre o estilo dos Mulheres, mas também deixa uma pulga atrás da orelha daquele espectador “cult” mais conservador: com segurança, ele fala que Michel Teló é música, tudo é música, e música boa, desse modo, tudo é influência para a dupla.

Seguindo uma linearidade, que vai desde o encontro de Abujamra e Pereira em um curso de tambor africano, passando pelo primeiro show da dupla – em uma biblioteca infantil, assistido por apenas seis pessoas, entre as quais o produtor Pena Schmidt, que na época trabalhava na Warner e estabeleceu o contrato da dupla com a gravadora – até a separação dos Mulheres, o documentário retrata o impacto de uma dupla de cientistas malucos da música na música brasileira dos anos 1980.

Na busca por cantarem música pop pra ficarem ricos e xaropes, os Mulheres Negras acabaram mostrando para que serve uma música, gerando uma antropofagia rica, presente também em movimentos como a Tropicália e o Manguebeat. Com a estreia do documentário no momento em que a dupla volta à ativa, fica a torcida para que os músicos cutuquem mais uma vez o comodismo que parece querer tomar conta da música brasileira, mostrando que é possível fazer muito em um pequeno “laboratório de Santa Cecília”.

* A repórter agradece à assessoria de imprensa do evento pelo convite para ver as sessões.

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