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IN-EDIT BRASIL 2013: Cobertura – Parte 2

Por Gabriela Alcântara

O festival IN-EDIT Brasil começou no dia 03 de maio segue até este domingo (12), em São Paulo, com exibições no Museu da Imagem e do Som (MIS), Cine Sesc, Cinemateca Brasileira, Matilha Cultural e Cine Olido. A programação conta ainda com a exibição de filmes como “The Punk Syndrome”, de Jukka Kärkkäinen e Jani-Petteri Passi, e “Ensaio sobre o silêncio”, de Zeca Ferreira. A programação completa pode ser vista no site do festival.

Sobre poesia e reconhecimento

Em última instância, o artista busca reconhecimento. Existem aqueles que ficam deslumbrados com a fama (ou a possibilidade dela) e também outros, os que sempre lembram de onde vieram. Entre eles estão os jovens dos morros do Rio de Janeiro, que há aproximadamente dois anos foram reconhecidos pela sua dança, o “passinho”, quando este foi levado para as grandes rede de televisão, como o SBT e a Globo. No documentário “A BATALHA DO PASSINHO”, de Emílio Domingos, o público do IN-EDIT ficou mais próximo do universo desses dançarinos, que vão desde crianças de três ou quatro anos que ainda usam chupetas até jovens de 20 e poucos anos, que conciliam a dança com trabalhos diversos.

Apesar dos problemas durante a exibição no Cine Olido, no centro de São Paulo – onde a cópia travou em vários depoimentos, pulando cenas – a narrativa construída por Domingos prendeu os espectadores em suas poltronas. Entre momentos divertidos e emocionantes, “A Batalha…” apresenta-nos jovens que poderiam passar despercebidos nas ruas do Rio de Janeiro, mostrando como suas vidas são levadas pelo amor à dança. É graças a ela, por exemplo, que eles cultivam a vaidade em seus cabelos – pintados de loiro ou raspados nas mais diversas formas – e nas roupas de marca, que são compradas com o dinheiro tirado do trabalho.

Com uma câmera curiosa, Domingos pega não só depoimentos certeiros, como quando uma amiga dos meninos afirma com sinceridade que “quem tem poder hoje na favela ou é dançarino ou é traficante”, mas também entra nos bailes funks e nas batalhas de várias comunidades, com ângulos que fazem com que o espectador sinta-se dentro da cena.

O filme emociona não só pela construção de sonhos dos jovens cariocas, mas também pela precoce destruição de um deles. Um dos personagens mais carismáticos do documentário, Gambá, faleceu na virada do ano de 2011 para 2012, assassinado, após não ter conseguido embarcar em um ônibus para voltar para casa. Diante das cenas que se seguem, a importância maior do longa ecoa: a de disseminar ainda mais a arte dos “moleques sinistros”, que nada mais são do que bailarinos exímios, cujos passos poderiam dar um nó na perna de muita gente, e que apesar de terem ido para as Paraolimpíadas de Londres em 2012, ainda não foram reconhecidos devidamente em seu próprio país.

Buscando um mito

Também sem reconhecimento em sua terra, Jesus Sixto Rodriguez tem uma história que poderia ter saído facilmente de uma bela ficção. Com composições que foram comparadas ao estilo do contemporâneo Bob Dylan, o homem procurado em “SEARCHING FOR SUGARMAN”, de Malik Bendjelloul, acabou sendo idolatrado na África do Sul. E se nos EUA ele só vendeu cerca de seis a sete discos – Rodriguez tem dois vinis gravados, mais raros que o disco do Di Melo –, na África do Sul ele alcançou o disco de ouro, vendendo milhões de cópias – grande parte delas pirateadas.

O motivo do sucesso está no poder das letras de Rodriguez: diante do Apartheid, os jovens da África do Sul encontraram nas músicas daqueles discos uma chance de se expressar. No entanto, pouco sabiam sobre o seu autor: cercado de lendas sobre sua morte, Rodriguez se tornava um ícone cada vez mais forte. E foi graças a essa força, que se estendeu durante anos, que dois de seus fãs se uniram para encontrá-lo. A busca, que parecia estar coberta pela mesma neblina que cobria Rodriguez no show em que foi visto pelos seus empresários, acabou em um final surpreendente: tão “imorrível” quanto Di Melo, Rodriguez estava bem e vivo em Detroit, com três filhas criadas. Através de uma delas, conheceu os homens que o procuravam, viajou à África e foi aclamado, como sempre mereceu.

Com uma narrativa bem linear, Bendjellou costura seu filme com depoimentos, animações e canções de Rodriguez, trazendo para o público a sua versão da busca por Sugarman. Vencedor da categoria Documentário no Oscar 2013, e também do prêmio especial do Júri e da audiência no festival de Sundance em 2012, “Searching for Sugarman” é importante não só por trazer luz para um músico genialmente obscuro, como também por mostrar que o amor pela música pode mover um país, na busca pelo ídolo que, mesmo sem saber, os ajudou a vencer uma grande batalha.

Poesia visual

Por sua vez, Jards Macalé segue o caminho inverso. Mais obscuro fora do Brasil, o cantor passa a ser um pouco mais conhecido por esse público através do documentário “JARDS”, de Eryk Rocha. De acordo com o diretor, esse foi um dos grandes prazeres de ver o filme no MoMa, Lincoln Center (ambos nos Estados Unidos, dentro do festival New Directors/New Films), e em países como Portugal e Uruguai.

Porém, ao contrário dos filmes anteriores já feitos sobre o cantor, “Jards” não conta uma história em sua maneira mais explícita. Fugindo do elemento biográfico – já apresentado no documentário “Um Morcego na porta principal” (2008), de Marco Abujamra – o longa aventura-se pelos caminhos da vídeo-arte, encontrando eco em trabalhos anteriores de Rocha.

Aqui, além das cenas de estúdio, onde Jards parece gravar um especial de seus 70 anos com vários convidados – entre eles Ava Rocha, Adriana Calcanhoto, Kassin e Domenico – o que o espectador vê não são depoimentos dos colegas sobre a importância do músico, mas sim detalhes das relações entre eles, do processo criativo de Macalé e de pequenos objetos encontrados em partituras e instrumentos.

Em outros momentos, possivelmente os mais fortes do filme, o público é convidado a entrar no subconsciente de Jards e Rocha, como se os dois sonhassem juntos, em um mundo onde filmes de Super 8 do exílio de Macalé em Londres se confundem com texturas de sombras, ondas do mar e os olhos experientes e atentos de Jards.

E é exatamente por conta dessa narrativa, que pode parecer inusitada para alguns espectadores, que “Jards” deve ser visto do início ao fim. Entre sucessos como “Negra Melodia” e viagens etéreas, o longa de Rocha tem um impacto exatamente por caminhar junto com a música, através dela. Se perdidos os primeiros cinco minutos do documentário, é possível que não se entre no ambiente da dupla com tanta harmonia.

* A repór­ter agra­dece à asses­so­ria de imprensa do evento pelo con­vite para ver as sessões.

01 comentários

  • Seria legal a vinda do Jair Naves (que tem um show intenso), Mudhoney, Teenage Fanclub Para Festival No Ar Coquetel Molotov 2013.

    Alexandre 12.05.2013 08h45

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