Por José Teles
Não vi o Ave Sangria tocar, nos idos dos 70.Lembro de ver alguns integrantes passando ali no começo da Conde da Boa Vista, diante da Fun’s, acho que se escrevia assim, uma lanchonete, que foi point da juventude bronzeada da Veneza Americana, no começo da década, (naquele tempo os recifenses, olindenses e jaboatonenses, iam pra praia). Ficava, mais ou menos, onde funciona hoje uma agência do Bradesco, perto da Sete de Setembro. O pessoal apontou, Ivinho, Almir, Agrício Noya, e Rafles, acho (faz um data isto). Robertinho do Recife, era outro que quando passava na rua, era apontado por todos.
Coincidiu que, no tempo em o Ave Sangria foi o Rolling Stones do Nordeste, eu fui morar no interior, Garanhuns, onde passei quase três anos. A turma de roqueiros da cidade curtia muito o Ave Sangria, o LP da banda rodava adoidado nas vitrolas. Quando voltei pro Recife, o AS não mais existia, mas a cena udigrudi continuava. Ainda peguei shows de Flaviola, lançando o disco com o Bando do Sol, o Batalha Cerrada, Cães Mortos, Show de Zé Ramalho e Lula Cortês, Aratanha Azul, o show Vivo, de Alceu com Zé Ramalho na Viola.
Mas eu queria era ter visto o Ave Sangria, com a formação original. Estar no Santa Isabel, no Perfumes Y Baratchos, nos dias 28 e 29 dezembro de 1975. “Prepare-se que seu coração vai sangrar”, frase no cartaz, que comprei de Rafles, e que está envelhecendo na parede aqui de casa. Rafles, foi o “ministro da informação” do Ave Sangria, o conheci, no início dos anos 90, no bar de comida natural de Glauco, na rua da Saudade, quase esquina com Conde da Boa Vista, pertinho de onde ficava a Fun’s. O bar, que Glauco fechou no começo do anos 2000, era conhecido também por O Médico e o Monstro, porque de dia era natureba roots, e à noite, depois das 18h, valia tudo.
Conheci depois Paulo Rafael e Almir por intermédio de Lailson, que armava uns saraus psicodélicos musicais no aniversário dele. Com Ivinho, falei algumas vezes, numa destas para o livro Do frevo ao manguebeat. Israel e Agrício, também foram umas poucas conversas. Com Marco Pólo aconteceu diferente, ficamos amigos, porque ele foi meu chefe no Jornal do Commercio, editor do Caderno C, durante alguns anos. Eu o conheci em meados dos anos 80, numa entrevista para um jornalzinho alternativo chamado Oxente (editado por Roberto Lima, que depois se afastaria do jornalismo) Enfim, não vi o grupo ao vivo, mas conheci todos os Ave Sangria. Não apenas conheci como dei uma pequena contribuição à história do grupo.
No começo dos anos 90, sempre que ia ao Rio passava pela casa de Paulo Rafael, no Jardim Botânico. Numa dessas visitas, ele me levou até um pequeno estúdio que montou num dos quartos do apê. Queria que ouvisse uma faixas do disco que estava gravando. Ouvia a música, quando meus olhos caíram numa fita K-7, com uma capinha na qual estampada com uma reprodução, colorida, da foto que se tornou “clássica” do Ave Sangria. Os caras sentados no chão, e no centro, uma menina misteriosa, ma non troppo, apenas de calcinha.
Apanhei a fita, que estava em cima de uma caixa, salvo engano, com um pilha de tapes da marca Scotch. Mal acreditei que ali havia o registro do último, ou penúltimo show do Ave Sangria, seu canto de cisne, com perdão do clichê. Perguntei a Paulo se podia levar a fita pra copiar (copiar, inclusive, a capinha, escrita à mão). Ele concordou, sem nem comentar sobre o K-7, que já se encontrava um pouco oxidado, mas com o áudio perfeito, era uma TDK alemã, daquelas tamporosas, que resistem até hoje.
Isto aconteceu em 1993, por aí.
Em 2000, a Fundarpe, a fim de incentivar o efervescente cenário musical do estado, patrocinou, durante cerca de um ano, na Universitária FM, o projeto Sintonize Pernambuco, programas dedicados à música pernambucana – os apresentadores foram eu, Débora Nascimento, Paulo André Pires . Toquei o K-7 no meu programa, chamado Do Frevo ao Manguebeat, que ia para o ar às quartas e sábados à noite. A fita rodou na íntegra, com a presença no estúdio de Rafles e Almir, que comentaram o show. Claro que foi um sucesso. Neguinho gravou, pirateou, blogueou. Bisei o programa, tantos os pedidos.
Depois de ter passado para CD, entreguei a fita a Almir, não apenas porque ele pediu, mas também porque o dono, Paulo Rafael, desde o dia em que encontrei a fita nunca havia falado nada comigo sobre o assunto. Anos mais tarde, a gente conversava, acho que na calçada do Bar Central, sobre o Perfumes Y Baratchos, e comentei que o show era um hit na Internet, e ele: “Eu tinha gravado em K-7, em casa, não sei quem foi o filho da puta que roubou”. Olhei pra ele, e confessei, mesmo sem ter afanado: “Fui eu”.
* José Teles é jornalista







