A HORA DE TIBÉRIO AZUL

Por Tathianna Nunes

“Bandarra – ou o caminho que vai dar o sol” é o nome do disco de Tibério Azul, que antes era só o Tibério , tanto da Mula Manca & a Fabulosa Figura, como o Tibério à frente do projeto Seu Chico, em homenagem à Chico Buarque. Com mais de 10 anos se dedicando à música, o cantor e compositor nascido e criado no Recife foi responsável por um dos lançamentos mais interessantes de Pernambuco de 2011.

“Bandarra” conta com produção do Sunga Trio, formando pelos músicos China, Chiquinho (Monbojó) e Homero (Estúdio das Cavernas), trio que responde também pelo selo Joinha Records, responsável pelo lançamento do disco. Gravado ao vivo e mixado em uma mesa analógica por Yuri Kalil (que já produziu grandes discos brasileiros como “Uhuu” de Cidadão Instigado), o disco conta ainda com Yuri Queiroga na guitarra, com o pianista Vitor Araújo, que também assina parceria em duas canções, com o acordionista Toninho Ferraguti, com o baterista Vicente Machado (Mombojó), entre outros músicos convidados. Para fechar o pacote, a arte é assinada por Raul Luna.

O novo trabalho já o levou para São Paulo e o ano mal come­çou e Tibério está esca­lado para dois impor­tan­tes fes­ti­vais per­nam­bu­ca­nos: Rec-Beat 2012 e Abril Pro Rock. Conversei com o músico que divi­diu suas ins­pi­ra­ções, expec­ta­ti­vas e o que tem em sua gela­deira.

Quais são suas principais influências para seu primeiro disco solo?

O que eu faço, se possui algum tipo de pretensão é a de ser largo e dinâmico. Assim, procuro me influenciar por tudo que me circula, pelo que eu alcanço e pelo que me alcança. Minha influências não são diretas, mas generalizadas. Posso citar o poeta Manoel de Barros, a poetisa Cora Coralina, um belo café da manhã, Caetano e Gil, um fim de tarde no Parque da Jaqueira, Lula Queiroga, Junio Barreto e George Harrison, longas conversas sobre a vida, longas piadas sobre a vida, o escritor Herman Hess, Rilke, Sidarta, Maria Bethânia, Aikido, uma criança que me olha nos olhos.

Qual a sua maior inspiração na hora de compor?
A vida, as pessoas vivendo, eu vivendo. Sou muito observador (as vezes até mais do que gostaria). Gosto de pensar sobre, observar atentamente, ver o que está por trás do que eu vejo e o que está a frente. Ao decidir compor sobre algo, levo um tempo degustando, maturando e procuro deixar que a poesia surja do óbvio. As vezes eu consigo, em outras sigo tentando. Minha maior inspiração é tudo, mas minha ferramenta mais forte é a calma e a atenção.

Mal saiu o seu primeiro disco solo, e você já foi escalado para a programação de dois festivais importantes da cidade: Abril Pro Rock e Rec-Beat. O que você vai preparar para cada um?
Puxa, ainda estou digerindo isso tudo. Para mim foi uma surpresa maravilhosa, sou fã dos dois festivais e fiquei imensamente feliz. Quero fazer um show mais animado no Rec Beat e um show mais direto no Abril pro Rock. Com esse trabalho tenho percebido uma facilidade de adaptação grande, fiz apresentações íntimas com o violão e me senti bem, fiz apresentações em palcos maiores e me senti bem também.

Entre projetos como Mula Manca e a Fabulosa Figura e Seu Chico, quanto tempo você trabalha com música? Tem conseguido viver só de música?
Completamente. Fiz duas faculdades e me formei em jornalismo e em publicidade. Um pouco antes da formatura passei por um forte momento de reflexão e decidi internamente que eu iria seguir minha pulsação natural, aquilo que para mim era fácil, que tinha fluidez. Pedi demissão dos empregos e me assumi enquanto artista. É incrível como as coisas começaram a acontecer depois disso.
Existe um livro que me influenciou bastante chamado “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke. Nele um jovem poeta pergunta se suas poesias são boas, se tem talento e coisas do tipo para Rilke que responde: “Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim depois de ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os a outras poesias. O senhor está olhando para fora e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investique o motivo que o manda escrever, examine se estende suas raízes pelos recantos mas profundos de sua alma e pergunte: morreria se fosse proibido escrever? Se a resposta for afirmativa, então construa sua vida de acordo com essa necessidade, essa é sua propriedade natural”.
Hoje vivo exclusivamente de arte, o que gosto de chamar poesia, não aquela poesia trancada, formalizada, mas o olhar poético no mundo, ver as coisas com poesia. Faço isso todo o tempo que consigo e tenho conseguido viver com e disso.

Como você vê a atual cena pernambucana?
Como consumidor acho que vivemos um momento ímpar. Discos incríveis, um tão bom quanto o outro. Músicas lindas, compositores maduros, produtores maduros, músicos maduros. Eu não era tão fã assim da música pernambucana, mas com o tempo comecei a observar que mais da metade da música que ouço, principalmente dos artistas mais novos, são daqui. O meu disco foi lançado no meio de diversos outros lançamentos e ao ouvir os meus conterrâneos fiquei muito orgulhoso de estar de alguma forma no meio deles.

Além de ter chamado atenção dos festivais locais, como você tem visto a recepção do seu disco solo fora de Recife?
Incrível. A recepção tem sido ampla e, o mais legal de tudo, carinhosa. As pessoas tem recebido o disco com muita delicadeza, como abraços, tem tomado propriedade de Bandarra. Acho isso muito interessante porque ele começou assim, desde a primeira reunião com China, Homero e Chiquinho, e parece que vai caminhar assim também.

Quais os planos para 2012?
Eu gostaria de tocar o máximo possível pelo Brasil. Sinto recepção em São Paulo, no Rio, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, e gostaria de circular, bandarrear por aí.

Que disco mudou a sua vida?
Puxa, tanta coisa mudou minha vida, continuamente. Mas, para citar um disco específico diria que “The wall” do Pink Floyd. A primeira vez que tive acesso a ele foi através do filme de mesmo título. Fiquei extasiado, quase não dormi. Era sensação pura, emoção a flor da pele, letras incríveis, muita sinceridade, muita dor também. Essa foi a minha porta de entrada para sentimentos que guardava escondido de mim mesmo.
Engraçado essa pergunta porque recentemente fiz uma lista cronológica de obras de arte que mudaram minha vida. Ela começou com “Turma da Mônica”, passou por Beatles, The Wall, Herman Hess, Rilke. Acho que sou muito susceptível a obras de arte e de tempos em tempos algo muda minha vida – até agora só para melhor.

O que tem na sua geladeira neste momento?
Eita, deixa eu ver. Tem frutas, danone light, suco light, leite de soja light, requeijão light, um vinho fechado, um aberto e uma cerveja daquelas mais encorpada. Tá bem misturado, né?

Você pode conhecer mais sobre Tibério e escutar suas músicas através do www.tiberioazul.com.br.