Por Jarmeson de Lima
Os festivais independentes que tenho visto pelo país tem conseguido ao longo do tempo se tornarem a cara da sua cidade. Então assim vamos acompanhando em poucos dias de show como funciona a cena musical de cada cidade em seus pontos altos e baixos. Desta forma, tirando a temperatura alta que rola em Belém nesta época, uma vez que o Se Rasgum passou a acontecer em um ambiente climatizado e fresquinho, o festival foi de uma energia bem calorosa. E tudo isso, claro, porque a cidade favorece e muito esta boa troca músico-cultural.
Na terra das aparelhagens, do carimbó, do tecnobrega, melody e derivados, é uma satisfação imensa ver nos palcos do Se Rasgum um pouco de tudo isso. Eu, assim como diversos outros turistas musicais, fica ou deveria ficar bem contente ao ver uma programação de festival eclética no bom sentido, e que não resvala para o apelativo ou popularesco.
Mesmo as atrações headliners, ou as mais aguardadas, mesmo sem estarem na ponta da programação, não são do tipo que dá pra virar o rosto. Neste ano os paraenses tiveram a chance de ver no mesmo festival shows com Eddie (PE), Bidê ou Balde (RS), Leoni (RJ), Gang do Eletro (PA), Lobão (RJ), Totonho (PB), Mestre Vieira (PA) e Jeneci (SP), entre outros. Pense numa misturada… mas uma misturada que funciona, porque o público acolhe e curte tudo isso também.
No sábado, por exemplo, a noite começou com jazz de um grupo local e terminou com o sempre polêmico Lobão. E mesmo reclamando muito no Twitter (durante a tarde foi quando ele deu sua polêmica declaração sobre a não-participação no Lollapalooza), quando ele sobe ao palco, não tem pra ninguém. Lobão manda ver nesse show com guitarras bem altas uma avalanche de hits para todo mundo cantar junto e esquecer do cansaço físico de estar ali em pé no festival por várias horas até às 05h da manhã. E se no dia anterior o Eddie tocou até o dia amanhecer e se no ano passado, Otto tocou até às 08h, esse horário “cedo” já é uma vantagem e tanto pra galera de Belém.
Talvez, o público de Belém, junto com o do Recife seja um dos mais despojados neste sentido. Curte o show de rock e depois vai apara aprelhagem, compra CD de mp3 nas barraquinhas do centro e baixa em casa o novo disco hype do momento. E com isso, diminuem-se as barreiras e os preconceitos, fazendo com que essa nova geração toque junto com os veteranos e respeite o seu lugar e sua importância na cena. O que foi algo até lembrado na palestra que presenciei no Terruá Pará. Para provocar, Carlos Eduardo Miranda, que era um dos debatedores, falou que ao menos o movimento musical no Pará estásendo autêntico, ao invés do manguebeat, que tinha sido obra de Fred, Chico e mais um grupo menor do que era a cena musical da época. Não havia uma aceitação, era uma insurgência rebelde contra o próprio marasmo musical do Recife, onde os “coroneis” como Alceu não tinham vez e só após um bom tempo é que foram todos incluídos.
No Pará, ao menos, todos estão conscientes de que só podem romper as invisíveis barreiras geográficas se todos estiverem juntos. O clima de brodagem e amizade entre os artistas é visível em cima e embaixo do palco. Era fácil ver ali circulando entre os palcos artistas que nem estavam escalados para este ano como Pio Lobato, Lia Sophia ou Felipe Cordeiro. Gente que estava ali simplesmente para ver os shows e apreciar o momento assim como o público que estava ao lado na plateia. Essa brodagem toda atingiu o ápice no show do Mestre Laurentino, considerado como o mais velho rockeiro do país, quando começou a cantar “Loirinha americana”. Em pouco tempo, o palco ficou tomado de gente cantando junto os versos clássicos desta música ao lado do veterano artista paraense. Momento histórico do festival com certeza.
Um dia antes, outra atração local roubou a cena e ainda ganhou de presente uma canjinha de peso. Foi Gaby Amarantos, que chegou como atração surpresa no show da Gang do Eletro. Por sinal, talvez nem fosse preciso essa participação especial. O jogo já parecia ganho para a Gang, que com um DJ e três cantores-dançarinos já conseguiam fazer todo mundo ficar animado com seus versos. A produção de palco não era assim grandiosa, até porque estavam no palco menor, mas fizeram valer a chance até o final, com direito a explosão e faíscas e um momento robô estilo Black Eyed Peas, onde a “capetinha da night” comandou sozinha o palco. E antes mesmo do festival começar, os habitantes de Belém que já conheciam a Gang previam: “já tou vendo todos os jornalistas de fora colocando a Gang do Eletro como melhor show do Se Rasgum”. Preciso dizer mais alguma coisa?
Em meio a tudo que é habitual em um festival heterogêneo como este, ainda havia um lounge para a participação de diversos DJs e tocadores de CDs e vinis no chamado Laboratório Música Paraense.org. Era o espaço para relaxar os ouvidos e apreciar de surpresa músicas de artistas como Criolo, Tulipa Ruiz, Wilco e Wado teletransportados até Belém através de DJs convidados como Luiz Valente (Vinyland) ou Marcelo Costa (Scream & Yell). Sem que isso soasse como concorrência aos shows que rolavam simultaneamente, era onde seria possível conversar mais tranquilamente em frente a um espelho d’água e uma árvore incrível no lado externo do Hangar.
E com um lugar assim tão incrível para abrigar um evento como este, ainda havia quem fosse saudosista a ponto de preferir os locais antigos. Mesmo sem conhecer as antigas sedes do Se Rasgum, prefiro mil vezes o conforto e a ambientação do Hangar. Bom saber que as próximas edições do festival estão garantidas por lá e que isso ajudou a trazer mais gente e um público diferente. Afinal, é pra isso que os festivais estão servindo, como ponto de encontro da boa música e como local agregador de público. Grande ponto para o Se Rasgum e para o povo de Belém do Pará!
* E no Podcast Coquetel Molotov deste sábado (26/11) tem mais cobertura do VI Se Rasgum com entrevistas de gente que participou do festival neste ano. Confiram lá: http://coquetelmolotov.podomatic.com















