Por Xavana Celesnah
Ousado, inquieto, performático, radical. Todos estes adjetivos certamente já foram usados para descrever o trabalho do jovem pianista Vitor Araújo. Alguns anos após o lançamento de “Toc”, por uma gravadora, agora Vitor ressurge com um novo trabalho chamado “A/B”, um disco lançado de forma independente, onde se sobressai o amadurecimento deste músico em vários sentidos. Em entrevista, Vitor comenta sobre seus trabalhos anteriores com uma autocrítica surpreendente e fala do processo de criação do disco novo que ganha show de lançamento no festival No Ar Coquetel Molotov deste ano.
Depois de Variando e Toc, você nos apresenta “A/B”, o que esse novo trabalho traz de diferente em relação aos anteriores?
O Variando, foi um DVD Demo que gravei no Salão Nobre do Sana Isabel. Foi o primeiro concerto que fiz na vida. Era um simples recital de um estudante do Conservatório Pernambucano de Música, mas o fato de eu ter feito alterações nas músicas que interpretei gerou asco no meio erudito. Depois desse concerto, fiz o FIG, a MIMO, e depois já subi no Teatro de Santa Isabel para gravar ao vivo o TOC, meu primeiro disco, que foi lançado pela DeckDisc. Ou seja, tudo muito rápido pra mim, o que faz com que o meu primeiro disco seja dotado de uma espontaneidade muito natural e de um caráter muito intempestivo, típico de um garoto saindo da adolescência, apaixonado pela música grunge mais do que a própria música erudita que interpreta. Isso é bem legal. Porém, existe ali também muita imaturidade, de um artista ainda no princípio de sua formação, com um direcionamento estético quase nulo, e uma capacidade de se expressar profundamente através da arte ainda muito embrionária. No A/B, me sinto mais senhor da minha obra, sinto que consigo transmutar os sentimentos em música de uma forma mais refinada, mais elegante. Isso me agrada muito. No A/B, tenho a sensação de uma apropriação mais consistente em relação a como se pensar num álbum, como construir uma narrativa através dele, me sinto mais racional, mas não menos explosivo quanto antes. Adoro esse disco.
No lado A do teu disco “A/B”, todas as faixas chamam-se Solidão. Você poderia falar um pouco sobre o que te levou a nomeá-las dessa maneira?
Compus essas quatro músicas na mesma época. Se não me engano, na mesma semana inclusive. Senti uma ligação muito forte entre elas, tive a impressão que elas falavam sobre o mesmo assunto, que elas tinham nascido no berço de um sentimento comum: o medo de ficar só. Eu, pessoalmente, tenho um problema seríssimo com solidão, entro em parafuso se ficar muito tempo sozinho, e visualizei muito fortemente esse medo presente na estrutura das quatro músicas. Então, transformei-as numa Suíte: Solidão n.1, Solidão n.2, Solidão n.3 e Solidão n.4.
Como foi o processo de criação do disco? Teve algum acontecimento que te inspirou/motivou a criar?
Surgiram primeiro as músicas: as Solidões e o Baião. Esse tema, solidão, me encantou bastante. Tive então a idéia de fazer dos meus concertos ao vivo uma experiência além da musical: chamei os cineastas Lírio Ferreira e Hilton Lacerda para, respectivamente, dirigir e escrever um concerto de piano comigo. Fizemos uma temporada de 2 meses desse concerto, que chamamos de “Angústia”, em São Paulo. No processo de criá-lo, eu fiquei algum tempo só lendo e vendo filmes com personagens extremamente sós a ponto de enlouquecer: desde o Raskolnikov, do “Crime e Castigo” de Dostoiévski, ao Roquintin, do “A Náusea” de Sartre, até filmes como “Últimos Dias”, de Gus Van Sant, ou “Clube da Luta”, de David Fincher. Desse laboratório, e do desenvolvimento do “Angústia”, surgiu a minha vontade de fazer um CD, explorando os dois lados do sentimento: um melancólico, gélido (Lado A), e um raivoso, irascível (Lado B). Aí surgiu o disco.
Por que você escolheu Raul Luna para fazer a arte do disco? Na capa de “A/B”, vemos uma imagem cheia de bocas, mãos. Na contracapa, temos alguns olhos. Você poderia falar um pouco sobre o significado desses símbolos?
Raul é um cara incrível. Ficamos extremamente ligados por uma amizade muito verdadeira, depois que nos conhecemos a alguns meses atrás. Chamei ele porque acho o trabalho dele no disco de Tibério absurdo. Perguntei a Tiba quem tinha feito a identidade visual do disco dele e peguei o telefone. Chamei Raul pra ouvir o disco comigo, no Estúdio Das Caverna. Ele pirou no disco de primeira, e ficou super empolgado pra fazer. Teve a idéia de me escanear no computador e fazer figuras com as partes do meu corpo, e produzir duas capas, uma pra cada lado do disco. No lado “A”, as figuras são todas fechadas: bocas, mãos, olhos estão fechados. No lado “B”, as mesmas partes do corpo estão abertas. Minha sensação com a capa é de visceralidade, posto que tudo que tem na capa sou eu mesmo escaneado, e acho a dualidade perfeita: um lado é um sentimento guardado, intro, contido. O outro é o sentimento exposto, explosivo, a boca que estava calada finalmente grita. Gosto muito do que Raul fez, e a colaboração dele com o disco foi muito além de simplesmente criar a capa, ou o encarte. Muito do que surgiu depois de eu o conhecer tem sua influência muito forte. E ele me apresentou Animal Collective. Serei eternamente grato por isso.
O que tu tens ouvido ultimamente?
Animal Collective, Panda Bear, Radiohead, Lira, Sigur Rós, Kate Bush, Ariel Pink, Chopin e Prokofiev. Meus vícios mais recentes.
Em “A/B” tem um lance de coração ferido, de sentimentos e sensações que oscilam. Você poderia falar um pouco sobre esse clima presente nas músicas?
De fato, emocionalmente, é um disco de difícil digestão. Ele não suaviza em nenhum momento: todas as músicas, mesmo as que tem mais a estética do belo, a preocupação com a beleza da construção harmônico-melódica, tem um amargor, um asco ou um lamento. Tibério Azul, quando escreveu sobre o disco, disse: é um disco pra se ouvir do começo até o fim, ininterruptamente, e , de preferência demorar bastante para a fazer segunda audição. Achei muito interessante a forma dele de ver as coisas. É como se não fosse muito recomendável ouvir muito o A/B. Eu gosto da densidade do disco. Eu gosto do clima pesado, da coisa deprê que ele tem. Espero que esse direcionamento Lars Von Trier que paira sobre o disco não afugente os ouvintes.
O que te motivou a escolher nomes como Naná Vasconcelos, Rivotril, Macaco Bong, Guizado, entre outros a participar do disco? Como foi trabalhar com eles nesse projeto?
Eu tinha em mente que eu queria o Lado B o mais esquizofrênico possível. Daí veio a idéia de cada do B ter uma participação de um artista, o que faria com que surgisse sempre uma nova informação a cada faixa e que ele fosse gradativamente se sujando, enlouquecendo. Começo com o ”Baião”, uma peça pra piano de minha autoria, que no final tem uma interferência de samplers programados por Yuri Queiroga. Na faixa seguinte, entra o Naná Vasconcelos, interpretando comigo a peça “Jongo”, de Lorenzo Fernandez. Ter Naná no meu disco é, talvez, a maior honra que já tive em minha carreira. Trabalhar ao seu lado, reinterpretar uma música erudita com o caráter ancestral que ele traz nas percussões, foi realmente um grande presente e um grande aprendizado. O B segue sua progressão com a poderosa assinatura do Rivotrill interpretando comigo “Veloce”, de Claude Bolling. E, pra fechar, vem o peso do Macaco Bong tocando ao meu lado uma música minha: “Pulp”, música em que homenageio o livro homônimo de Bukowski, e me inspiro bastante no cinema de Robert Rodriguez.
O fato de você ter ousado e improvisado em cima de canções conhecidas, gerou polêmica e até críticas negativas. Como você lida com essas críticas?
As críticas que pura e simplesmente atacam o fato de se tocar além do que está escrito na partitura, entram por um ouvido, saem pelo outro, pois são de uma caretice quase dogmática, de uma ortodoxia cega e burra semi-religiosa. Eu sou extremamente crítico comigo, e tenho bons amigos ao meu lado que me ajudam bastante a evoluir artisticamente. No TOC, tem várias interpretações que hoje acho serem muito imaturas, ou pouco preocupadas com a sonoridade, ou preocupadas demais com o gestual. Mas, tento não ser muito severo comigo mesmo: como já disse, o concerto em que gravei o TOC, foi a quarta apresentação ao vivo da minha vida e é absolutamente natural que os músicos evoluam com o tempo e maturem passo a passo o seu olhar sobre a arte, o seu repertório de referências, o seu nível de refinamento, e olhem pra si mesmo com uma crítica muito mais pesada e muito mais incisiva do que a de um ou outro careta que acha que a partitura de uma música e tão intocável quanto um livro sagrado qualquer.
Após o festival No Ar Coquetel Molotov, você já tem shows agendados?
A partir de Outubro, começo a rodar com o concerto do A/B pelo país.
Como aluno do bacharelado em piano na Universidade Federal de Pernambuco, qual é sua opinião em relação ao curso?
Achei o curso da Federal um saco. Não me acrescentou nada. Pra mim, ficar em casa e assistir um David Lynch ou ler um Kafka me dá muito mais substância.






